Consciência Negra (ou porque você deve parar de compartilhar o vídeo do Morgan Freeman)

Para ouvir lendo/para ler ouvindo: Emicida – Ismália

Depois de tanto tempo, cá estou a escrever de novo. Quem me conhece de outros tempos sabe bem que, quando me meto a escrever, é por algum motivo que realmente me deixa inquieto.

Hoje é 20 de novembro, também conhecido como o Dia da Consciência Negra. E nossas redes sociais (sim, tenho certeza que na sua também) são bombardeadas por artigos, memes, notícias, provando de um lado por que esse dia é importante, e de outro lado provando por que isso tudo é nada mais que “fortalecer o racismo”.

O grande símbolo disso é o famoso vídeo da entrevista do ator Morgan Freeman a um programa americano, dizendo (com certo desconforto, até) que “não precisa de um dia da consciência negra”, e que a maneira de acabar com o racismo é “parando de falar sobre isso”. Não vou pôr o video aqui, Google it e veja. Aliás, vou dar uma dica: Procure esse vídeo entre seus amigos. Depois, pergunte-se: quem compartilhou é negro?

(Não precisa responder não, é retórica.)

Antes de refletir aqui por que você não deveria compartilhar esse vídeo (e a narrativa por trás dele), queria lembrar uma história famosa: Há muitos anos atrás, um negro livre foi capturado e escravizado, e depois de muitos anos se tornou um símbolo da luta contra a exploração de negros. Eu poderia estar falando daquele filme, 12 Anos de Escravidão, mas na verdade estou falando de Zumbi dos Palmares. Ambos eram livres, ambos foram capturados, ambos sofreram todas as mazelas da escravidão, ambos se tornaram símbolos de luta. Um virou filme, ganhou Oscar e tudo. E o outro?

Nessa entrevista, feita há mais de 15 anos, o discurso de Deus Morgan Freeman serve até hoje de combustível para todo aquele que acha que é besteira um dia como hoje existir, ser lembrado, ser debatido. Freeman não está errado, mas você que compartilha talvez esteja, e eu vou explicar por quê:

Começa com a tradução do vídeo, que está errada e provavelmente de propósito. Mike Wallace, o apresentador, questiona na verdade sobre o mês da história negra, que lá nos Estados Unidos se celebra em fevereiro. Morgan Freeman está mais que correto em dizer que não precisa de um mês da história negra, arrematando ao dizer que “a história do negro é a história da América”. Não há necessidade de separar (mais ainda), até porque os negros ajudaram a construir a América. O negro é parte da história americana, não um capítulo à parte. O nosso Dia da Consciência Negra não é “apenas” o dia da história negra. Aliás, quando é o mês da história negra no Brasil? Vamos mais fundo: O QUE É A HISTÓRIA NEGRA NO BRASIL? Quais outras personagens negras da nossa história você conhece?

20 de novembro, também data da morte do Zumbi dos Palmares, não é um dia de festa. O “Dia da Consciência Negra”, aliás, é um nome inventado pra data, mas poderia ser “dia de lembrar que negro também é gente”, ou “dia de repensar os privilégios que os brancos têm APENAS por serem brancos”. Eu também creio que poderia ser o “dia de lembrar que o preconceito existe” e principalmente “dia de aceitar que NÃO SOMOS TODOS IGUAIS”. Não somos mesmo. E por isso é NECESSÁRIO lembrar do dia de hoje e estender a “consciência negra” a todos os outros, até que essa diferença, que nunca vai deixar de existir, ao menos deixe de ser sinônimo de sofrimento para um dos lados.

Reafirmar diariamente a luta da qual Zumbi é símbolo (o maior deles, mas nem de longe o único), para muitos negros é questão de sobrevivência em uma sociedade que até hoje segrega com base no tom de pele. A segregação racial nunca deixou de existir, a diferença é que antes era permitido fazer isso com grilhões e chicotes, hoje é com falta de oportunidades, violência (sempre ela), mas principalmente com a normalização disso tudo.

A gritante disparidade entre grupos, etnias e camadas sociais só reforça o fato de que é preciso muita “consciência” – Branca, negra, índia, oriental, feminina, LGBTQ+, obesa, idosa… Resumir isso simplificando como “consciência humana”, tratando tudo como uma coisa só, dá a falsa sensação (corroborada na entrevista do ator) de que só somos racistas quando falamos sobre isso. Enquanto isso, existe um advogado para cada 190 habitantes do Brasil, porém apenas 1% deles são negros. Será que a cor da pele influencia na vocação acadêmica do indivíduo? O que precisa ser feito pra mudar esse quadro?

Consciência Negra é lembrar que o negro também tem sua cultura, também tem voz, também precisa ter vez. É entender que, se infelizmente as coisas ainda não são assim, já passou da hora de qubrar o preconceito e dividir o holofote com aqueles que nunca tiveram seu protagonismo afirmado. É entender que não existe cabelo bom e cabelo ruim, que a cor da minha pele diz sobre minha origem, mas não sobre meu carater ou minhas capacidades. É qualquer coisa menos “fortalecer o racismo”. Não dá pra simplesmente “parar de falar sobre isso”.

Eu não queria estender muito, mas é impossível deixar de lembrar que as estatísticas corroboram a desigualdade racial (que caminha junto com a social, mas não são a mesma coisa): O Santos FC, meu time do coração, fez o trabalho por nós e expôs dados impressionantes sobre a presença negra no Brasil, mesmo sendo maioria (de acordo com o Censo Nacional, mais da metade da população brasileira se declara negra ou parda).

A música que sugeri aqui, Ismália do Emicida, faz uma ótima analogia com a situação que o negro pobre encara por aqui. Vale a pena ouvir, refletir sobre a letra e sobre a pergunta que eu faço agora: a tal consciência humana existe de fato?

“Oitenta tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo

Ismália, Emicida
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